segunda-feira, setembro 05, 2005

ghetos e apartheid

American Apartheid

As imagens que nos chegam de Nova Orleães são esclarecedoras: em 2005, nos EUA, as vítimas do furacão Katrina são, quase só, americanos negros.1. Quando não são negros são, por exemplo, brancos pobres e velhos. Um deles justificava-se perante as câmaras quando questionado sobre os motivos por que não tinha abandonado a cidade: “estamos no fim do mês, tenho só 4 dólares no bolso, não podia pôr suficiente gasolina no carro para escapar até um lugar seguro”. As imagens da fuga da cidade na véspera do furacão ajudam a explicar o que se passou: as auto-estradas estavam engarrafadas com viaturas particulares repletas de pessoas e de bagagem. Ou seja, foi dada ordem de evacuação da cidade mas não foram disponibilizados meios para essa evacuação, pelo que a sua concretização dependeu, sobretudo, dos recursos de que cada um dispunha. Os pobres ficaram e foram apanhados pelo furacão.Quando, em Portugal, se ouvem as vozes arrogantes dos neoliberais nacionais clamando, muitas vezes sem critério, por menos Estado, é bom que nos lembremos do que aconteceu em Nova Orleães em 2005, onde o Estado da mais poderosa nação do mundo se DEMITIU de ajudar os mais fracos a escapar à calamidade: provavelmente porque esta não é já uma tarefa que Bush entenda corresponder às funções centrais do Estado.2. E os que ficaram foram, sobretudo, negros. Não porque fossem negros na mesma proporção os habitantes de Nova Orleães. Mas porque nos EUA os negros estão sobre-representados entre os pobres e entre os que vivem nas áreas degradadas dos centros urbanos, enquanto os brancos se instalam em proporções crescentes nos novos subúrbios. Este padrão de segregação residencial, em termos simultaneamente classistas e raciais, está na origem do título do mais famoso livro de Douglas S. Massey (com Nancy Denton): American Apartheid. Nele se argumenta, através de uma minuciosa análise dos dados censitários, que “a segregação residencial é a característica estrutural da sociedade americana responsável pela perpetuação da pobreza urbana e uma das causas fundamentais da desigualdade racial nos Estados Unidos” (p. viii). Segundo os dados analisados, nas zonas degradadas de Nova Orleães eram negros quase 70% dos seus habitantes.Quando, em Portugal, os sectores multiculturalistas de diversos quadrantes se unem para, irresponsavelmente, defender a requalificação dos guetos da Grande Lisboa em lugar de um realojamento desconcentrado, recomenda-se, com urgência, a leitura do livro de Massey. E, em tempo de eleições autárquicas, importa confrontar os candidatos com os problemas da guetização e os modos de os enfrentar.

http://ocanhoto.blogspot.com/

O papel do Estado

Quanto custa o subfinanciamento do Estado?
A ressaca do neoliberalismo pode ser gigantesca. O que aconteceu em New Orleans, como lembrou o Rui Pena Pires, mostra os efeitos das teorias do Estado minimalista. Em artigo reproduzido no International Herald Tribune, Paul Krugman liga directamente a incapacidade de evitar a pilhagem de Bagdad e a de evacuar e assistir a cidade devastada pela natureza. Um Estado que se desresponsabiliza do destino das pessoas, abandonou uma das suas tarefas mais nobres.O Estado subfinanciado sai barato a todos excepto aos que morrem desnecessariamente por causa disso.

visto em http://ocanhoto.blogspot.com/

American Way of Life

Miséria e morte na América

No rescaldo a quente e ainda incrédulo dos efeitos do Katrina, do morticínio em larga escala, dos caos e devastação que provocou, avoluma-se a crítica e a identificação de falhas e faltas. O rol é extenso: subestimação do impacte e das consequências destrutivas de um furacão de magnitude superior como o Katrina, prevenção inapropriada, planos de emergência e evacuação inadequados, fragilidades nos sistemas de diques e represas e de bombagem das águas do lago Pontchartrain e do rio Mississipi, alertas e auxílios tardios, coordenação deficiente, incapacidade de mobilizar rapidamente meios para acudir às populações em risco de vida, aos desalojados, deslocados, em fuga, a caminho de lugar incerto, sem alimentos e água potável dias a fio.
Discussão, revolta e apuramento de responsabilidades nos diferentes níveis de administração deixarei para outros. Não quero precipitar-me para balanços e conclusões, correr o risco de parecer procurar gratificação em exercícios vácuos sobre tanta desgraça, desolação e exaspero.
Há um só aspecto que quero abordar.
Mais do a que negligências de vária ordem corrigíveis a partir da presente experiência dramática (e traumática), a inesperada (e gigantesca) dimensão da catástrofe humanitária ter-se-á devido acima de tudo a uma espécie de autismo – um racismo tão radical quão institucionalizado em que classe e cor da pele convergem – que leva a sociedade americana de um modo geral a ignorar por completo os mais miseráveis dos seus infelizes. Em especial nos Estados do Sul, logo nos dois mais atingidos pela fúria do Katrina: Luísiana e Mississipi, há gente, quase toda negra, absolutamente indigente, espalhada por povoados e casario dispersos. Essa gente, frequentemente analfabeta ou quase, sem recursos ou dinheiro para nada, a viver muitas vezes na normalidade sem energia eléctrica, sem acesso a bens de consumo e a cuidados de saúde, excluída até das configurações mais simples da sociedade da informação e do entretenimento, nem terá entrevisto (ou seja: ouvido falar d)o que lá vinha, nem se terá posto o dilema de ficar ou abalar (mas para onde?).A Grande, Poderosa e Rica América possui, como não se encontra em lado nenhum da Europa comunitária, extensas bolsas de pobreza extrema, liminar, bolsas constituídas por autênticos párias, proscritos, intocáveis. Isolados, lazarentos, pretos, não votam, não contam, não existem. Ou só existem, tarde demais, no momento em que os seus corpos aparecem a flutuar, semi-putrefactos, em estados variáveis de decomposição, nas águas fétidas que submergem parcialmente Nova Orleães ou nos charcos, pauis e pequenas lagoas que as águas do Golfo do México deixaram para trás ao recuar – felizmente, ao menos isso, tem prevalecido a decência de não os transformar em (sórdido) objecto mediático. Esse ostracismo por omissão, é componente intrínseca do American Way of Life, que as políticas neo-liberais dos últimos anos mais não fizeram que acentuar. Shan’t we ever forget it.

visto no http://bombyx-mori.blogspot.com/

domingo, setembro 04, 2005

(...)poucos dias depois de consumada a retirada dos colonatos da faixa de Gaza, o Governo de Sharon anunciava a intensificação de um megacolonato na Cisjordânia. Se era precisa uma prova de que a retirada de Gaza não faz parte de uma súbita conversão de Israel ao "roteiro para paz" na Palestina, ela aí está. Infelizmente, só podem surpreender-se os crédulos.
De facto, a decisão unilateral de desmantelar os esparsos colonatos da pequena e superpovoada faixa de terra entre Israel e o mar Mediterrâneo não foi produto de uma repentina benevolência do Governo israelita nem em relação à comunidade internacional, que pressiona Israel para a descolonização dos territórios ocupados, nem muito menos em relação aos palestinianos. Como foi devidamente explicado, Gaza custava a Israel mais do que valia. Garantir a segurança de alguns escassos milhares de colonos judeus, em uns poucos colonatos espalhados no meio de mais de dois milhões de palestinianos, era demasiado exigente em termos militares e financeiros. É certo que, com essa retirada, Sharon, que foi ele mesmo outrora o instigador da política de colonização judaica dos territórios ocupados, provocou a ira e o ódio dos colonos e o fanatismo dos fundamentalistas religiosos, partidários do Grande Israel, desde o Mediterrâneo ao Jordão. Mas tal utopia revelou-se em qualquer caso impossível, face à radical hostilidade encontrada e à desigual taxa de crescimento da população judaica e palestiniana, trazendo a prazo a certeza de uma maioria palestiniana dentro desse espaço. Excluída a possibilidade da sua deportação maciça para os países árabes vizinhos, como sucedeu no início da formação do Estado judaico - "solução final" que, porém, continua a ser acarinhada pelos extremistas do Grande Israel -, a opção realista só pode estar numa separação territorial que permita uma separação populacional.
Gaza foi o primeiro território a ser deixado para essa missão de "reserva de palestinianos". Ora, ao contrário do que sucedeu em Gaza, onde a colonização sempre fora reduzida, na Cisjordânia ela não tem cessado de se intensificar sob o Governo de Sharon. São regulares as notícias de ampliação dos colonatos existentes ou do estabelecimento de novos assentamentos israelitas. O mesmo se passa em Jerusalém. Trata-se em geral de colonatos contíguos com o território israelita, quase contínuos entre si, portanto muito mais fáceis de defender e de integrar do que os de Gaza. A construção do muro de separação - cuja edificação avançou, apesar da sua patente ilegalidade, como foi reconhecido pelo Tribunal Internacional de Justiça, na Haia - pretendeu dar ares de carácter definitivo a uma nova fronteira rasgada bem dentro dos territórios ocupados, colocando "do lado de Israel" uma parte considerável da Cisjordânia, incluindo seguramente as suas melhores terras.É bom de ver que, nos projectos israelitas, a política de retirada de Gaza não é em nada contraditória com a intensificação da colonização na Cisjordânia. Pelo contrário, é instrumental. Do que se trata é de trocar objectivos revelados impossíveis - a anexação e colonização integral da Palestina - por um objectivo menos ambicioso, mas, julga Sharon, com melhores possibilidades de ser realizado. Mas é esse plano viável?
Só o seria, se os palestinianos o aceitassem sem resistência como facto consumado. Contudo, estas quatro décadas de ocupação violenta deveriam já ter convencido toda a gente de que tal não é possível. Por maior que seja o poderio militar dos ocupantes, o certo é que nas condições da Palestina, onde à humilhação da ocupação e da opressão se juntam as divisões éticas e religiosas dos dois povos, não faz sentido esperar a rendição e a aceitação do Diktat israelita. Nenhuma potência ocupante tem direito a esperar a aceitação da ocupação, seja na Palestina, no Iraque ou em Timor. A força pode conter ou mesmo eliminar transitoriamente a resistência. Mas basta um pequeno rastilho para que a insurreição retome a sua dinâmica própria.
Por este motivo, são tão irrealistas as exigências israelitas de fim da resistência palestiniana, como a intenção de levar a cabo pela força o projecto de anexação territorial, o qual só pode prometer a continuação indefinida do conflito, até que, como sucedeu agora com Gaza, Telavive se convença de que a paz só pode ser alcançada mediante a troca do reconhecimento do Estado palestiniano, nas fronteiras dos territórios ocupados (incluindo Jerusalém Oriental), com a segurança das fronteiras internacionalmente reconhecidas do próprio Estado de Israel. A frustração do projecto de colonização judaica e de anexação definitiva de todos os territórios ocupados -, eis porventura a grande consequência da manifesta impossibilidade de subjugar a resistência palestiniana ao longo de todos estes anos de política de ocupação e opressão nos territórios ocupados. O problema está em que Israel não admitiu até agora nunca trocar a paz pelo regresso às fronteiras territoriais de 1967. O mais próximo que esteve foi nas frustradas negociações de Camp David, onde, contudo, ficou aquém de ceder na questão da divisão de Jerusalém, questão inegociável para os palestinianos e que ditou (juntamente com a questão dos refugiados) o lamentável fracasso dessa cimeira, realizada sob os auspícios do presidente Clinton.
Enquanto houver em Israel quem pense em anexar definitivamente uma parte da Palestina ocupada, estarão legitimados também os sectores extremistas palestinianos que se recusam a aceitar a própria existência de Israel e não discriminam nos meios para o revelar. A referida troca - que, aliás, é a única solução conforme com o direito internacional e com as resoluções das Nações Unidas sobre a questão - juntamente com um compromisso equitativo na questão dos refugiados - abdicando os palestinianos do direito de regresso, a troco de adequada compensação pelos suas terras e haveres deixados em Israel (não vai pagar o Governo israelita generosíssimas compensações aos colonos forçados a abandonar a faixa de Gaza?) - são as únicas bases realistas em que pode assentar uma solução justa para o problema palestiniano.
Independentemente da retirada de Gaza, é legítimo e devido exigir à Autoridade Palestiniana que combata as acções terroristas e as facções extremistas que as praticam. Mas a renúncia ao terrorismo não pode significar pedir aos palestinos em geral, nem à Autoridade Palestiniana em especial, que abdiquem de todas as formas de luta contra a ocupação israelita. É evidente que, se o fizessem, estariam a aceitar irremediavelmente a anexação em curso. As potências ocupantes e coloniais tendem sempre a generalizar o conceito de terrorismo, para designar todas as acções de luta contra elas (recorde-se o que sucedeu entre nós com a guerra colonial, onde as forças nacionalistas eram geralmente apodadas de "terroristas", sem distinção da natureza das suas acções). Ora, nem tudo na resistência palestiniana é terrorismo, noção que tem a ver necessariamente com o ataque a civis. Não é terrorismo, porém, a desobediência civil, a Intifada das pedras, o ataque, mesmo armado, a objectivos militares ou das forças de segurança, ou a estabelecimentos, equipamentos e infra-estruturas do ocupante, etc. Tal como Israel recorre à violência para tentar consumar a sua anexação dos territórios ocupados, é mais do que legítimo ripostar com idênticos meios para repelir a ocupação. Estender o conceito de terrorismo a todas as formas de resistência é uma operação intelectualmente pouco honesta e politicamente inconsequente.Parece evidente, em qualquer caso, que a intensificação da colonização israelita constitui no actual contexto uma qualificada e arrogante "provocação", que não pode esperar a passividade do lado palestiniano. Por isso, para além de Gaza resta todo o conflito para resolver, sem fim à vista.
(Público, Terça-feira, 30 de Agosto de 2005)

visto no 'Aba da Causa'

Louisiana

What has happened down here is the winds have changed
Clouds roll in from the north and it starts to rain
Rained real hard and rained for a real long time
Six feet of water in the streets of Evangeline

The river rose all day
The river rose all night
Some people got lost in the flood
Some people got away alright
The river has busted through clear down to Plaquemines
Six feet of water in the streets of Evangeline

Louisiana, Louisiana
They're tryin' to wash us away
They're tryin' to wash us away
Louisiana, Louisiana
They're tryin' to wash us away
They're tryin' to wash us away

(...)


(Randy Newman)

Choque tecnológico

Que choque tecnológico se pode implementar quando 80% da população não completou sequer o ensino secundário?

Boa pergunta. Feita pelo Miguel, no 'viva espanha'.

Apronfundando a leitura, ficamos a saber que:


A percentagem de portugueses que completou o ensino secundário não era só a mais baixa da UE em 2002. De facto, nem sequer havia nada parecido nos restantes países. Os valores mais próximos do nacional eram os da Espanha e da Itália, qualquer uma delas, ainda assim, com mais de 40%. A percentagem portuguesa em 2002 – 20,6% – era mesmo inferior à percentagem espanhola em 1992 – 24% – e neste período aumentou apenas 0,7 pontos percentuais. Uma realidade demasiado má para ser ignorada ou tolerada.


Números que arrepiam


Em 2002, Portugal apresentava uma taxa de população com o ensino secundário completo de 20,6% – a mais baixa da UE. A média europeia estava nos 64,6%, enquanto, a título comparativo, a Espanha registava 41,6% e a Alemanha registava 83%. Não explica tudo, mas explica muita coisa.

Já nem são precisas bombas (!)

Rumor de atentado suicida em Bagdade faz 650 mortos



O último balanço feito pelo Ministério do Interior iraquiano dá conta de 650 mortos esta manhã em Bagdade. A maioria morreu afogada ou espezinhada quando começou a circular um rumor de um atentado suicida.

O grupo de peregrinos xiitas atravessava uma ponte na capital iraquiana quando surgiu o rumor de que entre eles se encontravam dois kamikaze, de acordo com informações de uma fonte dos serviços de segurança iraquianos, citada pela agência France Press.

Em declarações à agência Reuters, o porta-voz do Ministério do Interior iraquiano informou que 650 pessoas morreram afogadas no rio Tigre ou espezinhadas pelas outras pessoas em pânico. A barreira de segurança da ponte cedeu com a pressão da multidão tomada pelo pânico.


(Sic on-line)

A Ficção e a Realidade

Nos EUA, toda a gente continua a ver demasiado os filmes produzidos pela sua própria indústria cinematográfica e a acreditar num país que é ficção. Se não estão preparados para um furacão que até nem atingiu áreas habitadas com a sua máxima força, como poderão alguma vez sobreviver a uma guerra no seu território?
Não fora o enorme drama humano no Mississipi e na Louisiana, e eu diria que o que por lá se está a passar é patético, se tivermos em conta que o país é uma potência militar e económica. E, no entanto, o Katrina foi só o início de algo que não se sabe onde irá parar, porque as emissões de CO2 para a atmosfera continuarão a crescer.
Julgo que depois de passada esta fase, e resolvida a situação de todos os que agora sofrem, será de recordar que o Protocolo de Quioto foi liminarmente recusado pela administração que governa o país.

(visto no 'viagens em terra alheia')

sábado, setembro 03, 2005

No delta do Mississipi

O delta do Mississipi, pântano gigante, terra do aligator e da serpente deve estar a passar por uma experiência difícil de descrever.
Para trás terão ficado os mais carenciados do Cajun. Gentes que só visitando aquelas paragens se pode saber que existem num País de que falamos sempre com a ideia de New York.
No delta, no pântano, a paredes meias com New Orleans, terra do Tabasco e do Jazz, vivem milhares de pessoas que nada têm a ver com esses Estados-Unidos de que se fala, que subsistem com muito pouco, que se exprimem num dialecto entre o inglês e o francês, que na época da caça vivem do enforcamento dos crocodilos, dos tours-safari feitos em velhas lanchas de desembarque pelo alagado.
Que será feito de toda essa gente, americanos como os outros, se nem água têm para beber numa terra perigosa, quase submersa?
Que se passa com a maior potência do Mundo que tarda em salvar os seus?
Que incompreensível é este Mundo em que vivemos!

visto no 'Tugir'

Calamidade e desigualdade

No meio do caos e da devastação da maior tragédia urbana de que há memória não podemos vestir a máscara da solidariedade hipócrita quando ela só nos serve para não pensar, para tratar tudo como uma inevitabilidade. Temos de questionar. Temos de afirmar que está tragédia é um retrato da falência da América. Temos de dizer que esta tragédia põe a nú as brutais assimetrias sociais de uma sociedade: os ricos fugiram, os pobres, os milhares de pobres, não puderam fugir, e são eles que sobrevivem no meio do lixo, dos escombros, da urina e das fezes do Dome, são eles que fogem dos tiros, são eles que atiram, são eles que tentam salvar os filhos, os pais, os avós, que passam fome e sede. E são milhares, milhões, como sabe toda a gente que se informa sobre o que são realmente os Estados Unidos da América para além da propaganda e do irrealismo das luzes cinemáticas e televisivas. Este país tem uma taxa de pobreza na ordem dos 25% (superior, imagine-se, a Portugal); este país tem uma educação e serviço de saúde públicos miseráveis, enquanto quem pode pagar tem acesso ao que de melhor existe no mundo; este país não tem qualquer tradição de assistencialismo social, o que se reflecte em todo o processo pré e pós passagem do Katrina. E este é o país que uns querem tomar como modelo, inebriados pela força, pelo poder, pela opulência, pela aparência, esquecendo-se que não há sociedade sem pessoas e que estas deveriam ser a razão de ser daquela, e não o contrário.

visto no 2+2=5

E tudo o vento levou

Num excelente editorial no PÚBLICO, Nuno Pacheco diz tudo: "A destruição de Nova Orleães começou antes de o Katrina chegar (...) A falta de investimento no reforço dos diques (...), as políticas urbanísticas expansionistas à custa da destruição de zonas húmidas e do litoral, a extracção sistemática de gás e de petróleo, a contrução, em parte desordenada, de sucessivos nós de transportes ferroviários, rodoviários, marítimos, fluviais e aéreos muito fizeram para que se viva o drama presente (...) O Mississipi (...) viu o seu delta afundar-se cerca de 90 centimetros em 100 anos". Eis algo que intuitivamente reconhecemos: falta de investimento; destruição da zona costeira; extracção de matérias-primas; construção desenfreada- não vos lembra algo muito próximo? Não admira, o projecto é o mesmo em todo o lado, só mudando a graduação, que obviamente tem o seu auge nos Estados Unidos. Eis a realização do sonho capitalista, eis o projecto ultraliberal, eis o mito de que o mercado se auto-regula destruidos de um ápice por um vendaval de verdade.

visto no 2+2=5
Divisões raciais e de classe em Nova Orleães postas a nú pelo Katrina

Um excelente artigo do José Pestana, da Agência Lusa, sobre o caos em Nova Orleães e as questões de raça e classe.



A calamidade causada pelo furacão Katrina trouxe à superfície as divisões raciais e de classe que continuam a ser uma característica da sociedade norte-americana.





Se é verdade que as câmaras de televisão podem distorcer a verdade ao concentrarem-se num aspecto de uma realidade mais vasta, em Nova Orleães não se pode contornar o facto de serem negros e pobres a esmagadora maioria dos deslocados que não têm para onde ir. Centenas, senão milhares, de norte-americanos de todas as raças perderam os seus haveres e familiares em várias zonas do Alabama e Mississipi, mas são as imagens da cidade de Nova Orleães com milhares de negros isolados, desesperados e em alguns casos a pilharem lojas, farmácias e lojas de armas de fogo que têm enchido os noticiários das cadeias de televisão, fazendo lembrar cenas até agora vistas em locais distantes como a Libéria.

*


Isto reflecte claramente a pobreza da população negra nas grandes zonas urbanas dos Estados Unidos, tornada mais visível em Nova Orleães por ser uma das cidades norte-americanas onde a maioria da população é negra e onde 33 por cento da população total vive na pobreza. "Nova Orleães é uma cidade dividida em duas: uma relativamente rica, pequena, e bonita, que é predominantemente branca, e outra que é pobre, grande e feia e é quase totalmente negra", escreveu o comentarista Eugene Robinson.

*


Dados estatísticos indicam, com efeito, que 67 por cento por cento da população de Nova Orleães é de raça negra. Das sete zonas mais afectadas pelas inundações, cinco são de maioria negra e a pobreza, aí, abrange 34,6% da população, segundo as estatísticas oficiais. Estes números, no entanto, não reflectem os altos níveis de pobreza em certos "bairros negros" da cidade afectados pelas cheias. Na zona central da cidade (Central City) que está debaixo de água, 87 por cento da população é de raça negra e 50 por cento vive na pobreza. Na zona de "Lower Ninth Ward" 98 por cento da população é negra e 36 por cento vive na pobreza. Em "Bywater" 61 por cento da população é negra e 39 por cento é pobre.

*


A única excepção nesta tendência é o bairro de Gentilly Terrace onde 70 por cento da população é negra e o nível de pobreza é de 16%, um nível muito abaixo do dos outros bairros de maioria negra mas mesmo assim acima da média nacional de pobreza de 12,4 por cento.

*


Quando se compara este quadro com o dos "bairros brancos" afectados pelas cheias, as diferenças são notórias. Assim, por exemplo, no bairro de Lakeview, submerso pelas águas, 94 por cento da população é branca mas apenas 5 por cento é considerada pobre. Houve destruição nessa zona mas os habitantes há muito que estavam em segurança noutras partes do estado ou do país, beneficiando de uma maior mobilidade dada pela sua maior riqueza e demonstrando que, ao contrário do mito, as tragédias naturais não tratam todos por igual. "Esta catástrofe serviu para deitar luz sobre a miséria e constitui um comentário infeliz sobre raça e classe," escreveu o comentarista Bob Faw


visto no '2+2=5'
Nos locais atingidos pelo Katrina, no Louisiana, os bandos armados 'organizam' o saque às casas destruídas e pilham os poucos haveres que sobram nos destroços.
Até um helicóptero de salvamento que resgatava sobreviventes dos telhados, foi alvejado a tiro e obrigado a partir, deixando feridos pelo caminho.
Enviados para Biloxi e New Orleans, os soldados acabados de chegar do Iraque, têm ordens para atirar a matar, mesmo que seja contra alguém que apenas tenta sobreviver à custa das prateleiras de um supermercado fechado, sem mais nada para comer ou sarar feridas.

Deve ser a isto que eles chamam civilização.

sexta-feira, agosto 26, 2005

Uma imagem que vale por mil palavras


Imagem MERIS obtida a 21 de Agosto"Rastos de fumos provenientes de devastantes e incontroláveis fogos florestais de Portugal Continental espalham-se ao longo do oceano Atlântico nesta imagem do satélite Envisat obtida a 21 de Agosto."

(visto no 'Absorto')

http://absorto.blogspot.com/

Calamidade

"O problema é localizado. Repare-se que a dimensão da área ardida não chega a 3 por cento do território nacional. Não há que confundir o que são hectares ardidos com uma calamidade."[Jaime Silva, Ministro da Agricultura, sobre a possibilidade de accionar o Plano Nacional de Emergência, no Público de hoje]

"Uff, são só 3% e não 10% ou 100%", deve pensar o leitor de jornais e revistas, "afinal não é uma calamidade."Claro que 3% é uma calamidade. Mas a calamidade maior é termos gente tão cega a governar este país.

(visto no 'Aba de Heisenberg')

http://www.abaheisenberg.blogspot.com/

Quando leio coisas destas, fico tão furiosa, que só me imagino a dar um par de lambadas no ministro.

quarta-feira, agosto 24, 2005

Costa, "O Grande"
Por: Daniel Arruda

Fogos ficam nas mãos de Costa


É uma decisão sábia. Até agora Costa tem lidado bem com a situação. Tem deixado arder em lume brando, sem levantar ondas, distribuindo umas culpas por aqui, outras por ali, sempre sem se chamuscar muito. Soube impedir o 1º Ministro de voltar de férias, manter o seu "status".....
Ainda para mais Costa tem mostrado uma capacidade invulgar para liderar com o disparate, os dele entenda-se. Eu não tenho dúvidas que no governo não haja mais ninguém que consiga dizer e fazer tantos disparates sem se rir dele próprio. Ninguém com uma ambição tão cega que o faça fazer figuras tão tristes com a cara mais séria possível.
Por outro lado, entendo a posição de Sócrates. Sendo o país o menos importante (o que importa realmente é a imagem dele próprio), depois de tanta asneira feita no "capítulo fogos", Sócrates não vai querer pegar nisto. Quem começou que acabe, nem que seja preciso arder o país todo.
Resumindo, esta é a imagem de um governo. Das suas quintas, das suas ambições pessoais e onde os interesses do país não existem, a menos que sirvam os interesses pessoais de alguns.

Daniel Arruda, no 'Troll Urbano'

http://troll-urbano.weblog.com.pt/
A Arder

Sócrates virou costas ao país para fotografar girafas e hipopótamos, e vira-as agora aos jornalistas que o interpelam. Com o habitual ar de enfado blasé que o caracteriza, tolera com esforço os desabafos de meia dúzia de populares que lhe pedem as devidas meças. Com o desplante próprio de quem tem mais em que pensar, explica que apenas "ontem" se verificou uma "ocorrência extraordinária de incêndios", razão pela qual apenas agora foi pedida ajuda à União europeia. Um anónimo, de esgar desesperado, sugere "calamidade", mas Sócrates limita-se a quase sorrir, retorquindo que "calamidade" (enquanto conceito jurídico?), não é aquilo. Ao mesmo tempo, insta a população civil a voluntariar-se, para ajudar no combate às chamas.
Já Jorge Sampaio, um outro quido preocupado com os destinos chamuscados da nação (de férias desde o início de Julho) interrompeu finalmente os banhos frescos para se "inteirar" da situação. Reunido com meia dúzia de "operacionais" num "centro de decisão" qualquer, acaba por, mais uma vez, se limitar a proferir meia dúzia de banalidades que, de tão banais (passe o pleonasmo), são quase ofensivas para os ouvidos de quem combate os fogos e a exaustão há já vários dias.
Noutro canal, um presidente, penso que da associação de bombeiros profissionais (ou coisa parecida), diz algo que só pode ser mentira (só pode): que estes continuam disponíveis nos quartéis e à espera de serem chamados. Parece que são cerca de 800. O ministro da Administração Interna (que tem o mérito de se mostrar preocupado), diz que não pode fazer nada porque aqueles profissionais são da competência dos municípios. Mas confirma: faltam meios e gente para combater os fogos... E pronto, mais uma aberração que fica aparentemente sem explicação, neste país que verga sob o peso das cinzas.
Entretanto, e enquanto as gentes apagam fogos a braçadas de balde, que das torneiras nem um fio, o mesmo ministro anuncia em triunfo que o mais importante, agora, é criar um consórcio europeu que construa aviões de combate aos incêndios, para acabar com a dependência dos canadairs. O mais importante. Ai. Na mesma linha insana de actuação, um outro ministro (o do ambiente?), prometeu há uns dias ceder àgua do Alqueva a Espanha, pois parece que temos que chegue e que tal não comprometerá as nossas reservas. Duplo ai.
Enquanto ardem mais uns milhares de hectares, o primeiro-ministro aquieta as hostes, desvendando que estão para chegar mais meios aéreos, emprestados, esquecendo-se de acrescentar que serão sempre insuficientes e que chegarão sempre tarde de mais. Por momentos, proponho-me a um simples e breve exercício de demagogia e relembro o ministro Portas de má memória e os milhões gastos em submarinos inúteis, permitindo-me supor que três destes talvez dessem para seis ou sete Canadairs, e que talvez (só talvez, quiçá, quem sabe...) estes dessem mais jeito a Portugal do que aqueles.
Por fim, cansada, constato que, seguramente engasgados com o fumo e subjugados à canícula estival que lhes terá derretido os cérebros e a vergonha, esta gente que nos governa enlouqueceu de vez.
As imagens televisivas que se sucedem, dia após dia, lembram um retorno à tevê a preto e branco dos idos de setenta. Pelo ecrã passeiam-se jornalistas afogueados, com o cansaço e os nervos na voz; atrás destes, bombeiros barrigudos, carregados de boas intenções, correm que nem baratas tontas, dão e recebem ordens gritadas que ninguém cumpre, esticam mangueiras que se partem, abrem torneiras que não deitam água, fogem com o fogo a lamber-lhes os traseiros e carregam velhinhos que se negam a aceitar a tragédia; as mulheres choram e os homens apagam as labaredas, que lhes comem os jardins e as hortas, a baldes de água meio vazios. Nos olhos raiados de sangue dos bombeiros, lê-se o desespero e, nos gestos, vê-se o atordoamento de quem não está preparado, nem física nem estrategicamente, para vencer o cabrão deste inimigo que é o fogo.
Em artigos de opinião, em entrevistas, nos blogues, em conversas de café, as nossas existências pequenas e mesquinhas digladiam-se em picardias intelectuais e perdemos tempo a discutir se o fogo é ou não bom para a regeneração cíclica da vegetação autóctone, como se estivéssemos numa qualquer era glaciar ou no início da formação do mundo, e como se o facto de arderem eucaliptos (esses invasores malvados que tudo secam ao redor) fosse, no fundo, uma coisa boa, porque depois cresceria a vegetação natural da zona ( como se a vegetação natural que entretanto despontasse não fosse imediatamente engolida pelas chamas no ano seguinte...).
E quase ninguém fala nos animais que morrem asfixiados e carbonizados, o que me aflige especialmente, pois imagino-os encurralados pelas várias frentes de fogo que os filhos da puta dos incendiários ateiam em simultâneo, sem fuga possível. Ninguém se lembra dos pássaros nos ninhos, das raposas, texugos, doninhas, aves de rapina, lagartos, cobras, coelhos e das muitas outras espécies, algumas delas raras, outras que se extinguem para sempre, designadamente quando o fogo atinge ecossistemas particulares e únicos como os que existem em parques naturais e em áreas protegidas.
E os juízes de turno, fartinhos de julgarem onde fica a extrema do terreno e quem desferiu a sacholada na cabeça de quem, enjoados que estão até à medula da mancha verde que vêm da janela do seu gabinete, isolados no longínquo tribunal de província onde aterraram e sonhando com a promoção que finalmente os trará para os confortos betonados da cidade grande, sujeitam a apresentações periódicas, presumíveis incendiários (não obstante a pena para o crime de incêndio ir de 3 a 10 anos e a prisão preventiva ter, aqui, todo o cabimento, como única medida passível de afastar o perigo de continuação da actividade criminosa).
E eu, interrogo-me: será que as pessoas que vêem a tragédia filtrada pelo conforto inodoro dos ecrãs, à temperatura ambiente das suas salas de estar, se apercebem de como a mesma as afecta, a uma e cada uma delas, pessoalmente? Será que os pais, por exemplo, realizam que, a cada mancha verde que desaparece, explode exponencialmente o risco de as suas crianças padecerem de toda a espécie de insuficiências respiratórias e alergias? Será que não percebem que os fogos não são uma coisa que acontece lá longe (e cujo único resquício é esta mancha negra horizontal que paira no céus), mas que, quando ardem as plantas e os bichos, somos todos nós que ardemos?, nós, que também somos feitos de terra, nós, cujo sangue que nos corre nas veias é seiva que corre nas árvores?
Às vezes apetece-me gritar (até para mim própria, notem) Abri os olhos!, gente que passais a vida enfornados nos vossos assépticos apartamentos citadinos, cubículos de vaidade onde mal cabem os vossos egos insuflados. Abri os olhos, gente que se enoja ao primeiro salpico de lama e rebenta em erupções cutâneas à mera ideia do despontar da verdura primaveril. Acordai!, que a Natureza está a desaparecer e o futuro dos vossos filhos está a arder. Convencei-vos de uma coisa: sem Ela por perto, nós somos nada - e não há cá plasmas, nem ipodes, nem pecês xispeteó, nem playstations, nem turbos último modelo que nos salvem, se teimarmos em renegá-la e em empurrá-la para o quintal do vizinho ou para aquela abstracção longínqua a que convencionámos chamar de campo.
Dá-me ganas, isto tudo. Alguém tem que pagar por esta desgraça. Não, não falo do retorno aos obscuros meandros medievais da vindicta privada (embora...) , mas sim da responsabilização efectiva. A responsabilização política de quem vem permitindo esta catástrofe, descurando a prevenção e desprezando as suas consequências (tratando com laxismo quem a provoca); e a responsabilização criminal de quem larga o lastro do fogo por este país fora. Cá para mim, era prisão com eles: preventiva, primeiro e, depois, efectiva, por muito anos e bons. E, se possível fosse, umas horitas na frigideira, à moda do Tarrafal - facto que talvez os dissuadisse de voltarem a pegar num fósforo nos tempos mais próximos. Mas pronto, já sei: isto é um país democrático. Não há quem o governe, já lá dizia o Júlio César, mas não deixa de ser uma democracia, que não andámos a enfiar cravos nos canos das espingardas para nada.Por isso (infelizmente), os incendiários têm direitos, os madeireiros e os patos-bravos, também, e os políticos, então, esses, nem se fala: têm todos os direitos, incluindo o direito às chamadas férias-avestruz (em que, enquanto descansam lá longe e no fresquinho, enfiam as cabecinhas na areia e fingem que não vêem) e o direito de gozarem indecentemente com a nossa miséria ano após ano e de (não obstante) ninguém lhes partir as caras-de-pau, em directo e no prime time.O que é pena.

(escrito na areia por vieira do mar no 'controversa maresia')

http://controversamaresia.blogspot.com/

Credibilidade

A credibilidade é como a virgindade: quando se perde, não mais se recupera. Foi o que aconteceu com a polícia britânica. Em cinco minutos perdeu toda a credibilidade, que lhe custou um século a granjear. A Scotland Yard mentiu após ter assassinado a sangue frio o brasileiro Jean-Charles de Menezes. Mesmo com a atenuante de que mentiu no contexto da febre antiterrorista dos atentados de Julho, a mentira é inadmissível quando vem da polícia, que deveria estar vacinada contra a histeria colectiva. Mentiram todos os chefes, que justificaram os sete tiros na cabeça do brasileiro afirmando que vestia um sobretudo, que podia muito bem servir para esconder a bomba que, de acordo com as conjecturas policiais, podia explodir no metro de um momento para o outro. E que, para além disso, levava uma mochila, o que constituía um sinal evidente das suas criminosas intenções. Nem sobretudo, nem mochila, nem bomba. Tudo não passou duma sequência de mentiras para ocultar o embaraço da morte de um inocente. Aquele que mente uma vez não se livra da suspeita de que pode mentir um milhão de vezes. E, para os cidadãos do chapéu de coco, a polícia britânica é mentirosa, como as dos outros países do outro lado do canal. Que vergonha!

(visto no 'Briteiros')

http://briteiros.blogspot.com/

terça-feira, agosto 23, 2005

Gaza

Dó de quem?
(Alexandra Lucas Coelho, JerusalémPublico, 20 de Agosto de 2005)

Dó dos colonos.A mulher a imolar-se pelo fogo, os velhos rabis a correrem com a Tora nos braços, os ortodoxos a rezarem a última oração, as mães a apertarem bebés ao colo, os jovens a serem arrastados por braços e pernas, o soldado a chorar amparado à sua irmã, os tanques, os gritos, as chamas, a guerra.Dó?Perguntem a Mohammad.Quando os seus foram expulsos não ocupavam terra alheia. Não receberam compensações financeiras. Não tiveram caravillas, moshav, kibbutz, cidades que os acolhessem. Não causaram dó em directo. Eram centenas de milhares e não tinham um país seu.Até agora não têm.Ou como Mohammad diz: "Tenho 18 anos e ainda não vivi um dia bonito."Os colonos viveram muitos dias bonitos, nas suas casas bonitas, com jardins bonitos, à beira de praias bonitas. Gush Katif era o paraíso que Deus prometeu, Israel alimentou e os homens fizeram, a partir dos anos 1970. Sharon lá estava, soprando para que crescessem. Seculares e religiosos, funcionários e agricultores, nascidos em Israel ou recém-chegados. Por que não? Se o lugar era tão fértil. Se o clima era tão bom. Se o governo pagava.Assim foi, em Gaza. Quase 9000 colonos para os dias bonitos. Quase um milhão e meio de palestinianos para os dias feios.Um dia de Mohammed Abu Adel, por exemplo. "Acordo com os tiros israelitas e durmo com os tiros israelitas." Entre os dois tiroteios, tenta ir às aulas, subindo todos os dias os 40 quilómetros que vão de Rafah, no Sul, onde mora, à Cidade de Gaza, no Norte, onde estuda. Fica preso nos checkpoints, às vezes horas, às vezes dias.Não sabe o que é um espaço aberto a perder de vista. Porque em Gaza não há espaço e Mohammad nunca saiu de Gaza.Tudo o que conhece são estes 40 e tantos quilómetros de comprimento por uma dezena de largura onde se apertaram os palestinianos expulsos por Israel em 1948, se voltaram a apertar ainda mais quando Israel ocupou Gaza em 1967, e ainda mais quando os colonos chegaram.Dó dos colonos?Não perguntem a Mohammed.Ele só quer acreditar que a retirada israelita vai mesmo mudar os seus dias. Os tiros de manhã, os tiros à noite, a demolição das casas, a humilhação dos checkpoints, a claustrofobia de quem não pode passar a fronteira e estar no Egipto, passar a fronteira e ir a Jerusalém, à Cisjordânia, aos países árabes, à Europa. "Gostava muito de ir a Paris, a Londres, a qualquer outro país..."Anda na universidade a estudar Comércio com uma ideia fixa metida na cabeça, entrar na Polícia, para poder circular livremente. Sair daqui.E não o demovem as palavras do homem que, nesta praça da Cidade de Gaza, em plena retirada israelita, espera como ele que o checkpoint abra para poder descer a Rafah, e se mete na conversa.- Todos os muçulmanos têm que estar aqui - protesta o homem, inflamado.- A Palestina será sempre a Palestina nos nossos corações. Mas a situação pede-nos para sair - responde Mohammed.Mohammed gostava de estar mesmo feliz, mas sabe que "a situação" não acaba aqui. Que o céu por cima da sua cabeça continuará a ser domínio de Israel. Que o mar lá ao fundo continuará a ser patrulhado por Israel. Que tudo o que entra e sai de Gaza continuará a estar nas mãos de Israel. Tudo o que se mexe, tudo o que se come, tudo o que se usa.Dó de quem?

(visto no 'a outra face do espelho')


http://www.outrafacespelho.blogspot.com/

Centrão

A direita, em Portugal, não suporta ser oposição e a esquerda não é capaz de assumir, em pleno, o governo. Duas razões empíricas: o centro político que domina o poder, desde o 25 de Abril, está enleado em negócios cinzentos (ou negros) e em cruzamentos de fretes, na atribuição de lugares e prebendas, além daquilo que a minha imaginação não alcança; por outro lado a tradição política portuguesa, dos últimos 80 anos, está marcada pela ditadura, com um cortejo inenarrável de limitações às liberdades cidadãs.O pensamento político em Portugal oscila entre a tentação populista, fascinante para as grandes massas, e a resignação elitista, comprazida na mobilização em torno de “causas” e “valores” (sejam de “esquerda ou de “direita”).Quem for capaz de fazer obra (pequena, média ou grande) associando realismo, iniciativa e ambição é, pura e simplesmente, eliminado. O centro político, que distribui as benesses, não admite “faltas de respeito” às regras do jogo que tudo sacrifica à defesa dos negócios que aproveitam sempre aos mesmos. Por isso não admira que os políticos “possíveis”, pois o centro não admite senão políticos “possíveis”, vacilem e caiam rapidamente às mãos daqueles que os manipulam nos bastidores com, ou sem, a sua aquiescência.Fica assim dada uma hipótese de explicação para a insignificância aparente de Marques Mendes, para a provável disputa presidencial entre Cavaco e Soares, para a derrota (previsível) de Carrilho, para o “exílio” de Ferro na OCDE, em Paris, para as dificuldades (precoces) do governo de Sócrates, para as opções evasivas de Freitas e para o estrebuchar desesperado de Alegre. O centro está cheio de vazio, mas é quem manda. O resto vegeta, seca ou morre à sua volta.

(visto no 'absorto')

http://absorto.blogspot.com/

Arquivo do blogue